[Persona 3 ~ Be Your True Mind] 0.1

29 08 2007

0 – Fool

Luz. Apaga.

Energia. Acaba.

Música. Pára.

Vida.

Fim.

Era isso o que se via. Ao descer do trem, tudo desliga.

O garoto, de cabelos azuis como a noite, e olhos acinzentados, com um tom azul, como o céu nublado.

A garota, que era o completo oposto, de cabelos avermelhados como o pôr-do-sol, os olhos da cor do sol nascente.

O garoto nem prestava muita atenção. Talvez já estivesse acostumado com tudo aquilo. Ele simplesmente ignorou tudo ao seu redor e continuou seu caminho.

A garota, por sua vez, não costumava sair de casa tão tarde, e portanto, nunca poderia ter visto aquele fenômeno. Ela estava muito assustada.

E para o rapaz de cabelos dourados como a luz da manhã e olhos azuis como o céu limpo, aquilo não passava de mais uma noite de trabalho.

Haviam caixões aonde normalmente haveriam pessoas, o céu tinha um tom esverdeado em vez de seu azulado natural. E havia algo simplesmente inquietante sobre a atmosfera em geral.

Ao descer do trem, tudo apaga, tudo desliga. O trem, o seu tocador de musica, o relógio ― parado exatamente à meia-noite ―, as pessoas.

Tudo isso era comum. Ele estava acostumado com as Trevas.

Mas dessa vez, ele ouviu um grito. Isso não era comum.

Havia uma garota de cabelos castanho-avermelhados, confusa, correndo pela estação. Estava muito assustada; era provavelmente a primeira vez que vira as Trevas.

― …Tudo bem com você? ― O garoto perguntou, com a expressão imutável, seus cabelos azuis caindo sobre seu olho direito.

― UMA PESSOA! ― Exclamou a garota, que o garoto já havia marcado na lista de ‘pessoas escandalosas que não é legal ter por perto’. ― Tudo bem fora todas as pessoas terem VIRADO CAIXÕES!

― Se acalme.

― Ok… Ok… AAAH!

O garoto suspirou. ― É a sua primeira vez nas Trevas?

― Trevas? O que é isso?

― É o nome que eu dei pra ‘isso’. ― Ele respondeu, inexpressivo.

― Isso…? Essa falta de energia e tudo mais…?

― É.

― Trevas… Entendi…

Ele podia ver, porém, que ela não entendeu nada.

― Isso sempre acontece na transição de um dia para o outro. ― Ele explicou, sem muita vontade. ― Coisas que aprendi por convivência.

― Eh. ― Ela coçou a bochecha. ― Eu nunca fiquei fora até tão tarde, então…

Ele empurrou a catraca (um tanto quanto emperrada) para sair da estação. ― Precisa de ajuda?

― Hm, talvez… Faz tempo que eu não venho pra Port Island, então… ― A garota riu. ― Me chamo Minato Hamuko!

Ele parecia, pela primeira vez, surpreso. ― …Arisato Kitarou.

― Arisato… Nome incomum… ― Ela sorriu, passando por cima da catraca, já que seu físico feminino não a permitia empurrar uma catraca travada. ― Ah, e pra onde está indo?

― Dormitório Escolar de Iwatodai.

Mentira! ― Ela exclamou. ― Eu também vou pra lá!

E agora ela era ia morar junto dele? Incrível. ― Oh.

― Vamos morar juntos, não é legal!? O mundo está cheio de coincidências!

― …

Em algum lugar escuro da cidade, o rapaz parou para descansar de seu trabalho.

― Makino… Eu já não disse pra você parar de fumar? Numa hora dessas, ainda por cima…

― …Não me importa. ― O rapaz, de cabelos dourados e repicados, estava soprando a fumaça de dentro da boca. Ao seu lado estava um rapaz mais velho, usando uma touca preta, de cabelos castanhos e bagunçados.

― Isso faz mal pra você.

― Como se você tivesse moral pra dizer isso, senpai. ― Ele levou novamente o cigarro à boca.

― Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. ― O mais velho sentou-se num degrau.

― E eu não estou tão viciado assim. ― Ele soltava lentamente a fumaça ao falar. ― Você vive por aqui, sabe como é nas ruas. Tem gente bem pior.

― …Não é por isso que você vai deixar de se cuidar.

― Não me importa.

― Teimoso… Isso ainda vai te matar. ― O mais velho se levantou e começou a andar. ― Faça como quiser. Te vejo mais tarde.

― …cuidado, senpai.

― Não sou seu senpai.

Há muita coisa para se ver nessa cidade. Como os dois jovens sentados numa escada.

― Não sente algo diferente hoje, Hidetoshi-kun?

― Não, Keisuke.

― Como se algo muito grande estivesse para acontecer! Não parece?

― …Vai dormir. Você já está muito cansado.

― M-Mas eu tô falando sério! Tem algo especial hoje…! Aah, Hidetoshi-kun!

Hamuko e Kitarou, a garota do sol e o garoto da lua, acompanharam um ao outro no caminho para o dormitório. A garota falava animadamente sobre sua viagem, enquanto o garoto escutava em silêncio. Podia parecer simplesmente ignorante por não responder, mas Kitarou estava, de certo modo, interessado no que a garota tinha a dizer. O dormitório ficava próximo a um templo, não era muito dificil de encontrar. E o lugar não era tão longe do trem bala que leva à ilha-porto Tatsumi, de longe o lugar mais movimentado e moderno da cidade. Era praticamente uma cidade por si só, muito maior do que Iwatodai.

Ao entrar, as luzes ainda estavam apagadas. Não havia ninguém na sala, a não ser por um garotinho de inquietantes e estranhos olhos azuis, quase sobrenaturais, pele muito clara e cabelos negros como a noite.

― Vocês estão atrasados. Estivemos esperando por vocês há muito tempo. ― Disse o menino.

Hamuko olhou ao redor. Não havia ninguém mais ali; por que ele teria dito aquilo no plural?

Kitarou, porém, estava mais preocupado com o caderno que apareceu na mesa.

― Se quiser prosseguir, por favor, assinem seus nomes aqui. É um contrato. ― O menino empurrou o caderno na direção deles. ― Não se preocupe, tudo o que ele diz é que você aceitará toda a responsabilidade por suas ações. Você sabe, as coisas de sempre.

Hamuko e Kitarou se entreolharam, mas decidiram que era melhor assinar. Kitarou assinou na linha mais alta, com traços cuidadosos. Hamuko rapidamente assinou na linha abaixo dessa, sua letra de certo modo mais infantil que a do amigo. Sobrou, porém, uma linha, a mais baixa.

― Ninguém pode escapar do tempo. Ele leva todos nós ao mesmo fim. Você não pode tampar os ouvidos e cobrir os olhos. ― O menino pegou o caderno de volta. ― Hm… Terei que cobrar a assinatura dela mais tarde.

Eles se entreolharam novamente, com expressões que gritavam, “quem é ‘ela’”?

O contrato desapareceu das mãos do menino. Kitarou parecia, pela primeira vez, impressionado.

― E então começa…

E, tão rapidamente quanto veio, o garotinho desapareceu, com uma expressão satisfeita.

Existem muitas perguntas a serem respondidas, não? O que era aquele fenômeno estranho, que transformou a Terra num lugar sem vida? Quem era aquele garoto? Quem era a terceira pessoa que assinaria o contrato? Seria simplesmente coincidência que Arisato Kitarou e Minato Hamuko se encontraram no caminho para o mesmo lugar, onde viveriam pelos próximos anos? Quem eram os dois rapazes no beco, e os dois jovens na escada? O que faziam por lá? Por que muitas pessoas se tornaram caixões e algumas não?

Aquela noite, porém, era apenas o começo das dúvidas…

― Quem está ai?

Era uma voz feminina, de certo modo assustada. Era uma garota de cabelos castanho-claros, vestida com um uniforme escolar sobreposto por uma blusa rosa. Em sua perna, carregava uma arma, que ela lentamente buscou com a mão ao ver as duas figuras na sala.

― Espere, Takeba!

Uma garota mais velha, de cabelos vermelhos e longos, cobrindo seu olho esquerdo, entrou em seguida. Ela vestia um uniforme escolar, mas parecia muito refinada e chique mesmo assim.

Em algum (?) lugar, neste mesmo momento, duas figuras conversavam. Um menino ― acredito que seja o mesmo que apareceu no dormitório ― estava de pé ao lado de uma menina; eles eram muito semelhantes, já que a garota tinha o mesmo cabelo negro, a mesma palidez, até mesmo a mesma pinta abaixo do olho direito. A diferença entre eles, porém, era que os olhos da menina eram prateados e sem vida.

― Foi divertido. Você deveria ter vindo junto.

― Só você foi o suficiente. Eu não preciso fazer esse tipo de aparição desnecessária.

― O que vai fazer agora…?

― Não é óbvio? Vou atrás da terceira assinatura. Foi o que pediram para fazermos, afinal.

― E como pretende conseguir?

― Vou faze-lo de um modo muito mais eficiente que você, isso eu garanto.

― …Tome cuidado.

A luz acendeu novamente, assim como o som alto da musica que vinha dos aparelhos de Hamuko e Kitarou.

― Eu não pensei que fossem chegar tão tarde… ― A garota mais velha começou. ― Meu nome é Kirijo Mitsuru. Sou uma das estudantes que vive neste dormitório.

― …Quem são? ― A garota de rosa perguntou.

― Alunos de transferência. ― Mitsuru respondeu. Foi uma decisão de ultima hora coloca-los aqui. Eventualmente serão levados aos dormitórios corretos.

― …E está tudo bem eles ficarem aqui? ― Ela perguntou.

― Acho que veremos… ― Mitsuru sorriu, e se dirigiu aos dois novatos. ― Essa é Takeba Yukari. Ela é uma aluna Junior esse ano, assim como vocês.

― …Hey. ― Yukari cumprimentou, desconfortável.

― Prazer em conhecê-la! ― Hamuko sorriu.

― Esse é o dormitório feminino…? ― Kitarou indagou.

― Diferente de outros prédios, esse é misto. Mas não é como outros dormitórios; explicarei mais tarde quando tiver a chance. ― Mitsuru explicou, satisfeita. ― Está ficando tarde, então vocês deveriam descansar. Os quartos masculinos ficam no segundo andar, e os femininos ficam no terceiro. Ambos os quartos de vocês ficam no fim do corredor. Suas coisas já devem estar por lá.

― Oh, eu vou mostrar pra vocês. Venham comigo.

Yukari os acompanhou desconfortavelmente. Primeiro, no segundo andar. Foi com Kitarou até o fim do corredor, e o mostrou o quarto.

― O seu é aqui. É fácil de lembrar, já que fica bem no fim do corredor… Alguma dúvida?

― Para o que era aquele contrato? ― Kitarou decidiu perguntar. Não custava nada, afinal.

― Huh? …Que contrato? ― Yukari parecia não saber do que ele estava falando. ― Então, tudo bem no caminho até aqui?

― Sim.

― Entendo… Deixa pra lá, então. ― Yukari fez uma curta reverência. ― Nos vemos amanhã.

Então, ela prosseguiu para o terceiro andar, levando Hamuko até seu quarto, igualmente no fim do corredor.

― E aqui estamos… No final do corredor. Ah, e não perca sua chave, senão você nunca mais vai ver outra. Fique de olho. ― Isso assustou Hamuko, por algum motivo. ― Perguntas?

― Perguntas… Ah, aquele menininho mora aqui também? ― Ela perguntou, curiosa.

― Que menino? Do que você está falando…? Vamos, não é engraçado…! ― Yukari parecia ter ficado assustada com o comentário. ― É, d-de qualquer maneira…! Tudo bem da estação até aqui…?

― O que quer dizer? ― Hamuko inclinou a cabeça. Lógico, as pessoas de repente viraram caixões, mas…

― Você sabe o que eu–! …Esquece, parece que está tudo bem, mesmo… ― Yukari suspirou. Deu as costas e se preparou para sair, mas virou de volta para um ultimo comentário. ― Boa noite.

Os quartos eram simples: apenas uma cama, um lavatório, uma mesa, e uma porta que provavelmente levava ao chuveiro. Porém, o quarto de Hamuko parecia um pouco mais organizado.

Ao entrar no quarto, Kitarou tirou o aparelho de MP3 do pescoço, junto dos fones de ouvido, que eram redondos e prateados. Vestiu seu pijama, que era branco com listras azuis ― pode soar um pouco infantil, mas ele se sentia muito confortável nele ― e sentou-se na cama. Se sentia estranho. Aquela garota, Hamuko; era coincidência demais, ele pensou. Mas não valia a pena ficar pensando naquilo. Eventualmente, as duvidas iam se resolver.

Hamuko se jogou na cama; estava cansada e doida para dormir. Com o rosto enterrado entre as cobertas, tirou os sapatos com os próprios pés, e decidiu descansar daquele jeito mesmo. Estava exausta demais para se concentrar em alguma coisa, principalmente trocar de roupa. Vou fazer isso de manhã, pensou consigo mesma.

Aproximadamente ao mesmo tempo, o rapaz de cabelos dourados andava despreocupadamente pelas ruas escuras da meia-noite. Pegou o isqueiro e um maço de cigarros do bolso. O cigarro não era exatamente de sua marca favorita, mas é o que se pode fazer quando não se tem muito dinheiro para gastar. O isqueiro era de coloração amarela, barato e descartável, daqueles que se compra em qualquer lojinha de esquina.

Foi na direção de um prédio de apartamentos, lugar que, não com orgulho, chamava de lar. Seu apartamento ficava no terceiro andar; o prédio tinha quatro. O apartamento em si era minúsculo: um comodo, banheiro, e uma varandinha. Era o máximo que poderia conseguir, já que não trabalhava. Todo o seu dinheiro atualmente é aquele que seus pais tinham e deixaram para trás.

Entrando no prédio, não havia uma alma viva. A recepção parecia vazia, a não ser pelo atendente que cochilava calmamente apoiado no balcão. Subiu as escadas até o terceiro andar, onde igualmente não havia ninguém. Seus vizinhos, afinal, eram uma NEET que dormia o dia todo no quarto 305, um advogado que quase nunca estava em casa no 303, um homem que fazia buracos na parede do banheiro no 302, e um gato que se recusa a sair da morada do falecido dono no quarto 301.

Em vez de parar para apreciar o corredor vazio, o rapaz entrou direto em sua casa. Jogou a jaqueta preta num canto qualquer, sem sequer se preocupar com os cigarros que estavam lá dentro. Espreguiçou-se, esperando o cigarro acabar. Quando tal coisa aconteceu, jogou o que sobrou com o filtro em outro canto; ele não se preocupava muito com a organização de seu quarto. Arrancou a regata amarela, lançando-a pelo quarto. Seu peito estava coberto por faixas e ataduras, que ele ficou olhando por um tempo antes de se deixar cair na cama.

Ele estava de bom humor, então iria para a escola amanhã.


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